Aos que estão pensando um projeto de desenvolvimento para o país

Pintar sobre o mofo ou reformar o telhado?
agosto 13, 2020

Um Brasil que me dá esperança é o da agropecuária sintrópica.

Gostaria de estar me dirigindo a todos os presidenciáveis, porém, infelizmente apenas um publicou um livro contendo um diagnóstico do Brasil, e suas sugestões para sairmos do fundo do poço. Vamos conversando à partir da leitura desta obra. Pergunto ao leitor: o que é agropecuária científica e de precisão?

Dentro do refletido no livro “Projeto Nacional: O Dever da Esperança”, uma das grandes pujanças do Brasil é o setor agropecuário. Ou seria, uma das grandes pujanças do setor agropecuário é o Brasil?  O que não é ruim em si. Pois um projeto de país que se preze, vai investir pesadamente na produção de alimentos, no processamento do mesmo, vai investir para girar todo o sistema agroalimentar de forma harmônica, lucrativa, favorecendo e fortalecendo a agroindústria, as empresas do setor agropecuário, e principalmente os produtores rurais.

Porém, hoje em dia produzimos muito mais commodities que alimentos. Em quantidade de calorias, segundo a FAO, já produzimos globalmente o suficiente para alimentar o mundo, porém não temos é a distribuição dessas calorias, muito menos numa diversidade/qualidade aceitável, sendo que mais da metade dessas calorias vem de menos de 10 commodities.

Será que teremos esperança num Brasil que continuará investindo pesadamente neste paradigma, seja com isenção de imposto de agrotóxicos (para depois ter que gastar com saúde pública), seja com créditos subsidiados, por exemplo, para compra de grandes maquinários de multinacionais estrangeiras? 

Creio que não.

Um Brasil que me dá esperança, é aquele Brasil cujo projeto financia outra agropecuária: a sintrópica. E boa notícia: não precisamos reinventar a roda! Precisamos de apenas pegar um dinheiro que já é previsto para ser investido em agropecuária e premiar agricultores e agricultoras que desejam fazer a transição para a uma agropecuária que fixa carbono no solo e nos cultivos, que recupera rios e nascentes, que faz voltar a bicharada, que fixa o homem e a mulher no campo, que aumenta a renda de campesinos, que tem uma produtividade muito maior que o cultivo convencional, mas também que, com o investimento certo, é possível ser aplicada em grande escala, com os maquinários agrícolas 4.0 criados por empresas brasileiras, para este tipo de manejo. Sendo adotada em larga escala, também podemos fazer voltar a correr os rios aéreos, que comandam o regime de chuvas da América Latina.

Agropecuária sintrópica larga escala de grãos fazenda Invernadinha (GO)

Agropecuária sintrópica familiar dendecultura promovido pela Natura, EMBRAPA, INCAPER, UFPA, e demais instituições (PA)

Agropecuária sintrópica larga escala fruticultura fazenda da Toca (SP)

Sim, são muitos os benefícios da agropecuária sintrópica: ao fazê-la regeneramos clima, meio ambiente, sociedade, saúde, economia, criando tecnologias. Por que não é amplamente adotada? São muitos desafios.  O conhecimento é um, maquinário é outro, uma coordenação coletiva bem planejada, outro. A agropecuária sintrópica dá autonomia para os agricultores e agricultoras a fazer um cultivo de processos, e não de insumos, que coloca a engrenagem da agropecuária dentro do mecanismo do planeta, das leis da natureza. As plantas que comemos vem da natureza, nós também, por mais óbvio que isso pareça, é importante destacar. Como colocamos o barco da agropecuária a favor do rio da vida, podemos sempre criar mais riquezas e otimizar a energia, e ao mesmo tempo regenerar ambientalmente a mesma área cultivada. É a regeneração pelo uso agrícola, e não pelo isolamento com multas.

Apenas com a práxis, com a aplicação e observação dos aprendizados dos povos ancestrais, ressignificando para o século 21, geramos o maior insumo da agropecuária sintrópica: o conhecimento. E isso é muito revolucionário. É essencial para a Economia do Conhecimento que pratiquemos e nos alimentemos de uma Agropecuária do Conhecimento. A Revolução Sintrópica pede passagem para a Revolução Verde. Agradecemos a contribuição do desenvolvimento até aqui, porém, tomamos frente, e queremos regenerar o Planeta Terra, não queremos ir para Marte!

Para constar, a Revolução Verde foi um processo alavancado pelo Estado, e, simultaneamente, o alavancou, como sinal de um bom projeto de Estado. A tríade crédito-pesquisa-extensão, aliada às isenções e incentivos fiscais, fez com que este modelo de agropecuária, conhecida atualmente como agronegócio, pudesse evoluir cientifica e tecnicamente, e trazer desenvolvimento e crescimento para o rural brasileiro. Sabemos de sua atual pujança e importância na economia, mas igualmente forte são suas contradições e consequências, socioeconômicas, ambientais e climáticas. Agradecemos, porém, avancemos para o próximo paradigma produtivo e regenerativo.

Desculpe o texto pouco numérico, preferi assim para não cansar o leitor. Segue abaixo referências para que possamos aprofundar a discussão. Além disso, na era da pós-verdade, podemos deixar o leitor à vontade para aprofundar ou não depois destas primeiras considerações.

Mariana Telles Rocha

Eng. Agrônoma, MSc, especialista em agropecuária sintrópica, brasileira e empresária.

REFERÊNCIAS PARA APROFUNDAMENTO

Natura Oil Palm. Acesso em <https://www.youtube.com/watch?v=TwzaeI-bHmg> 6:05 minutos

A VIRADA DO CONVENCIONAL | THE TWIST OF CONVENTIONAL FARMING. Acesso em <https://www.youtube.com/watch?v=T5NozFfHDpk> 5:14 minutos

Visita técnica Agropecuária Sintrópica com Ernst Götsch – Faz. Invernadinha. Acesso em <https://www.youtube.com/watch?v=elxbE4CLcbo>

MANUAL DE SOBREVIVENCIA PARA O SECULO XXI EP07 Alimentos, com Marcos Palmeira. Acesso em <https://www.youtube.com/watch?v=Bksg3_ucbg4>

COOPERAFLORESTA BARRA DO TURVO (SP). Agroflorestar: Semeando um mundo de amor, harmonia e fartura. Acesso em <https://www.youtube.com/watch?v=rU9W_FBHwvA> 31:33 minutos.

Agrofloresta – agropecuária recuperando o meio ambiente. https://www.youtube.com/watch?v=uSiuV0CkREM 52:39 minutos.

ANDRADE, D. O que é Agropecuária Sintrópica? 2019. Acesso em <https://agendagotsch.com/pt/what-is-syntropic-farming/>

BALEEIRO, A. V. F. Intersecção termodinâmica-ecologia e discussão das bases científicas da agropecuária sintrópica. 2018. 26 f. Dissertação (Mestrado em Ecologia e Evolução) – Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2018. Acesso em <https://repositorio.bc.ufg.br/tede/bitstream/tede/8385/5/Disserta%c3%a7%c3%a3o%20-%20Andr%c3%a9%20Vin%c3%adcius%20Freire%20Baleeiro%20-%202018.pdf>

DIEGUES, A. C. S. A. Mito moderno da natureza intocada. 1994.  http://nupaub.fflch.usp.br/sites/nupaub.fflch.usp.br/files/O%20mito%20moderno.compressed.pdf

GOULART, F. F., Sonia Carvalho-Ribeiro, and Britaldo Soares-Filho. “Farming-biodiversity segregation or integration? Revisiting land sparing versus land sharing debate.” Journal of Environmental Protection 7.7. 2016. Acesso em <https://www.scirp.org/pdf/JEP_2016061310534447.pdf>

MICCOLIS, A. et al. Restauração Ecológica com Sistemas Agroflorestais: como conciliar conservação com produção. Opções para Cerrado e Caatinga. Brasília: Instituto Sociedade, População e Natureza – ISPN/Centro Internacional de Pesquisa Agorflorestal – ICRAF, 2016. 266p. Acesso em <http://www.florestal.gov.br/documentos/publicacoes/2316-restauracao-ecologica/file>

STEENBOCK, W. et al. “Agrofloresta, ecologia e sociedade.” 2013. Acesso em <https://www.icmbio.gov.br/educacaoambiental/images/stories/biblioteca/permacultura/livro_AGROFLORESTA_ECOLOGIA_E_SOCIEDADE.pdf>

Cooperafloresta “União de Gentes e Natureza”. Acesso em <https://www.cooperafloresta.com/>

Mariana Telles Rocha
Mariana Telles Rocha
CEO at @caninana.agr Cofounder at @plantechuva
Blog